sexta-feira, 13 de junho de 2008

Vermelho e Amarelo


Havia um conjunto de ilhas perdidas nos mares onde vivia uma colônia de pássaros brancos. Esses pássaros passavam a vida a migrar, em busca de alimento, calor e amor.
No meio desses pássaros todos, havia um diferente e vermelho. Vermelho cresceu no meio das diferenças.
Inteligente e determinado, voava sempre muito pois tinha sempre amelhor visão das coisas. Como não fazia questão de misturar-se com osdemais, era meio solitário. Alguns brancos passaram a admirá-lo e desenvolveram muito afeto por ele. A maioria tratava-o diferente mesmo.
Entre os amigos pássaros, havia sempre algum que apaixonava-se e queria estar mais junto do vermelho. Os anos foram passando e nosso pássaro rubro, já cansado da solidão e de voar muito, resolveu estabelecer-se numa ilha. Até aceitou o carinho de um branco. Mas o tempo mostrou que as diferenças eram enormes e eles terminaram por separar os ninhos quando Vermelho conheceu um pássaro lilás. Foi paixão imediata, pois foi a primeira vez que ele apaixonara-se por um pássaro diferente como ele. De imediato, constituíram um ninho. Os outros pássaros brancos não viram com bons olhos esse nicho.
Mas o tempo foi passando e algumas transformações foram acontecendo.
No início, quando a paixão e o amor eram fortes,Vermelho sentia enorme prazer em voar e buscar alimento para o ninho,e aos poucos Lilás foi se acomodando. Passados alguns anos, Vermelho começou a sentir a ausência de Lilás, que passou a ter o hábito de voar de novo e ir conhecer ilhas distantes. Um dia, cansado dos vôosdistantes de Lilás, Vermelho segui-o e viu que ele relacionava-se com outros pássaros, e aquilo foi motivo de muitas discussões domésticas.Uma manhã, quando Lilás anunciou que iria voar a uma ilha nova,Vermelho pediu para Lilás não voltar mais e Lilás partiu, não sem antes destruir todo o ninho que haviam construído. Depenado, Vermelho procurou refazer-se.
Passados alguns meses, Vermelho viu um pássaro novo na ilha:Amarelo.
Amarelo era mais alto e tinha vindo de terras distantes e decidira construir um ninho naquela ilha. Um dia encontraram-se e passaram a voar juntos. Um sentimento surgiu entre eles, mas Amarelo era mais jovem, e as vezes sofria por não saber interpretar os sentimentos.Vermelho passou a gostar profundamente de Amarelo, mesmo que Amarelo não lhe desse tanto carinho como esperava. Amarelo tinha sido diferente também na ilha que nascera. Crescera buscando um pássaro para construir um ninho mas nunca encontrara um que despertasse essa necessidade até conhecer Vermelho.
Amarelo adorava o calor, a inteligência de Vermelho, suas plumas, e até seus amigos. Mas era imaturo. Acostumado a vôos passageiros, ficava provocando os outros pássaros, coisa que Vermelho pedira que nunca fizesse, até odia que fora flagrado por Vermelho a fazer gracinhas inconseqüentes.Profundamente magoado e sentido-se humilhado, Vermelho anunciara que deixaria o ninho. Nessa hora, Amarelo acordou e viu que não conseguiria viver sem Vermelho. Sentiu-se perdido, solitário, mais doque nunca, naquela ilha onde encontrara o amor de Vermelho. Sim, ele descobriu o amor no exato momento em que Vermelho anunciara sua partida e sua dor. Amarelo não suportava causar dor em ninguém, ainda mais naquele pássaro que ele aprendera a amar e tinha desrespeitado o amor tão puro que recebera. Pediu que Vermelho ficasse, mas ele afastou-se. Amarelo, sozinho no ninho, sentiu que era um idiota, que tudo que sempre procurava , tinha já achado, apenas não enxergara isso. E chorou, como nunca tinha chorado. Chorou um oceano de lágrimas.Chorou mais ainda quando viu as lágrimas amargas de Vermelho e a dor que causara. Chorou que quis morrer, para acabar com tudo, mas não tinha coragem pois acreditava que morrer não era a solução.
Não suportava a ausência e falta de calor de Vermelho. Chegou a conclusão que somente cresceria se fosse ao lado de Vermelho, que era mais experiente e que poderia ajudá-lo. Procurou Vermelho, que com muita dor, recebeu Amarelo. Amarelo, entre lágrimas sinceras, pediu perdão a Vermelho. Pediu-lhe não que perdoasse os erros, pois eles seriam necessáriospara lembrar o que não deveria ser feito. Pediu-lhe que o ajudasse acrescer pois Vermelho sabia mais do mundo e por mais que Amarelo tivesse voado em mares distantes e ilhas diversas, não sabia nada.Nada. Que aprendera a amá-lo do tamanho de todas as gotas dos mares eoceanos. Que nunca dissera isso pois não sabia dizer eu te amo e tinha suas limitações. Vermelho tinha sofrido demais quando separara-se de Lilás. Amara quase instantaneamente Amarelo. Ouvindo as palavras deAmarelo, seu coração doera mais ainda. Queria perdoar e dar uma chance mas o medo de ser mais magoado ainda lhe aterrorizara. Amava Amarelo mas a dor e a humilhação que sentia era muito grande. E não sabia oque fazer. Amarelo queria construir outro ninho. Queria não esquecer o ninho passado, mas que ele fosse uma referência que acompanharia a vida dele juntos. Amarelo queria fazer um futuro diferente e não queria um futuro sem Vermelho. Que só pedia a chance de provar, com o tempo e com ações, que amava realmente Vermelho. Vermelho cedeu. Amarelo arrancou sua pena mais bonita e entregou a Vermelho como prova de amor e carinho.
Não foi fácil para ambos mas Amarelo procurou de todas as formas mostrar que amava sinceramente Vermelho. Não só com palavras mas com muitos gestos. E o tempo passou e eles voltaram a construir um ninho.Vermelho deu uma asa a Amarelo e ele pode crescer e tornar-se maduro, voando cada vez mais alto, mas sempre junto de Vermelho. Amarelo tornou-se um pássaro de verdade. Vermelho cresceu mais ainda.Tornaram-se pássaros grandes. E por muitos anos, Vermelho e Amarelo voaram juntos, até que um dia voaram mais alto e acharam o caminho das estrelas e não voltaram mais naquela vida à ilha.

Ricardo AS. Bessa

terça-feira, 27 de maio de 2008

ENTRE O LIVRE PENSAMENTO E A HIPOCRISIA DO “GLAMOR”

Ninguém pode agradar a gregos e troianos. E cada um pensa o que quer. Dizem que vivemos em um país livre. Mas somos ainda tãoo presos a pre-conceitos. Vivemos uma falsa alegria, que, as vezes, só existe porque queremos que ela exista. O brasileiro é um narciso as avessas. É incapaz de se unir por coisas sérias, salvos alguns momentos. O que poderia ser um momento de "clamor", domingo na Parada, passou apenas uma tentativa de glamour, ou como chamarei aqui, de "glamor". É o que penso. Será que ainda posso pensar? Mas o que seria esse glamor? A luta pelo direito de ir e vir? Talvez, mas não foi. Ninguém nem pode sair diferente que já tem alguém apontando o dedo. Ritual dionisíaco? Bem, nunca fui chegado a esses bacanais públicos. Não sou santo, mas quem é? Pedras choverão. Tem muitas coisas que não gosto, mas não vivo na rua apontando: ei, você , és feio! Cada um segue o caminho que escolheu. E muitos caminhos nos levam a solidão, porque esse é o sentimento mas comum que vejo entre os meus e o desconhecido que passa, e que muitas vezes eu paro, para conhecer um mundo que não é o meu. E como saída, muitos buscam o alcool em excesso e drogas. Viver é complicado. Tem dias que a vida é uma droga mesmo mas nem por isso vou cometer suicídio. Alegria pra mim é ir ao teatro e dar boas gargalhadas. Tou virando bicho. Sou bicho-gente. A selva de pedra está me fazendo mal. Mas sobreviverei a ela. E tomarei fanta uva, entre homens de bem e homens do mal.

segunda-feira, 26 de maio de 2008

ENTRE LIBERDADE E LIBERTINAGEM


Domingo foi a 12ª parada do orgulho gay em São Paulo. Uma parada mesmo. O jornal noticiou que foram 5 milhões de pessoas. Brasileiro tem mania de exagerar. Não achei nem a metade disso mas tudo bem. Gente tinha demais sim. Me senti meio em marte. Qual o sentido do evento? Protestar, lutar, defender, diversão? O que vi foi muita bebedeira e libertinagem em plena avenida paulista. Vi muitas drags, umas pobres de jó, outras brilhando como o sol. Lá pelas tantas, fiquei pensando na falsa alegria e vida desses transformistas. A maioria ganha a vida na prostituição. Vida nada fácil. Poucos tem profissões definidas e estão bem empregados. Muitos vivem a fantasia de serem o que não são. Tantos homens e mulheres que deformam seus corpos, quando já não tem suas mentes deformadas de serem o que nunca na totalidade serão. Fico pensando nos carmas que cada indivíduo arranja pra si. Vi entre muitos que pediram passagem, uma "camioneira" numa cadeira de rodas. Não é preconceito não mas que carma aquela mulher-homem não carrega: feia, paraplégica, negra, lésbica e grossa. Me deu pena. Um evento que se diz o maior do mundo poderia ser melhor organizado. Nem um grande show tivemos. Quando passou o último carro, que mais parecia uma combi elétrica, me virei para o lado e perguntei: é só isso? Era. Vi todos os carros passando. Tomei duas fanta uva. Milhares de litros de silicone. Ainda bem que não me cansei muito. No fim, fomos beber um café na esquina da Oscar Freire com Hadocc Lobo. O dia terminara e a liberdade ficou no meu pensamento. Liberdade de que? A constituição diz que somos livres para ir e vir. Ainda bem. E cada um faz o que quer. Aleluia.

quarta-feira, 21 de maio de 2008

OS HOMENS TAMBÉM CHORAM

Tem dias que acordamos e a cama pesa tanto. Geralmente, são dias quando acordamos mais cedo e temos que correr. Todas as terças são assim para mim. Correr para o metrô e depois, pegar o trem. O pior de tudo é ficar esperando o ferroviário e ficar sentindo o desagradável odor que o tietê exala, já que a estação fica nas margens deste famoso rio. Na melhor das hipóteses, eu não pego um trem lotado. Cheio sempre está. Ontem cheguei cansado. A Wil não tinha embarcado para New York e tive a carona amiga. Sempre discutimos sobre nossos amores no caminho. Mas cheguei e me joguei na cama. Ai, espiei a tv e tava passando "Mr. Holland, adorável professor", um filme que adoro e que toda vida eu choro no fim. Todo professor se emociona. E como chorei. Dizem que homem que é homem não chora. Não chora pouco porque, quando chora, sai de perto. Eu choro fácil. Sou um homem de muitos choros mas fui incapaz de chorar quando meu pai morreu. Nunca. Mas homens chorando, as vezes, é um saco.

quarta-feira, 14 de maio de 2008

METADE DA VIDA


Acho que cheguei na metade da vida. Quando vejo o tempo para trás, tão efêmero, fico pensando nas transformações que o mundo passou e que eu vivi. Poucas mas algumas significativas. Lembro da morte de Chico Mendes, da queda do muro de Berlim, da eleições presidenciais, de algumas novelas, de Cazuza,Renato Russo e Cássia Eller, da insanidade de 11 de setembro. Melhor parar. Aos trinta e poucos anos, nossa percepção do mundo é diferente dos vinte e poucos. Começamos a vislumbrar a maturidade que deverá chegar aos quarenta. Há tanto o que aprender, e se possível, ensinar. Ontem, acordei cedo, e peguei caminho da faculdade. Peguei o terceiro trem que passou. Os anteriores, lotados. Entrei em um para não chegar atrasado e fiquei igual sardinha. Uma hora virei o rosto para o lado e uma moça chorava. Queria poder ajudá-la mas era um choro no meio de sardinhas. Ela desceu e nem pude acompanhar seu caminho com o olhar. Minha avó está morrendo. Oitenta e poucos anos de luta. Minha mãe está indo para seu lado. Serão dias tristes para minha família. Uma vontade de chorar me acompanha. Seria bom que deus a levasse logo. A alma é imortal. Estou cercado de pessoas que amo e que são importantes. A vida fica menos dura com essas pessoas. Amanhã é outro dia.

segunda-feira, 28 de abril de 2008

Domingo no parque


Domingo é dia de dormir até tarde. Se eu conseguisse, seria ótimo. Mas na noite anterior fui na virada cultural. Nada a declarar. Mas na manhã domingal, fui surpreendido. Ainda fazem pessoas como antigamente.Risos. Café da manhã na padaria é tudo. Depois, passeei na feira de antiguidades do Bixiga. Tinha até fofão. Ai que medo. O almoço, bem, não foi um almoço comum, mas estava desejando um cachorro quente e fui comer um na barra funda. O quiosque era de uma cearense, que mexendo na árvore genealógica, chegamos a conclusão que somos parentes. Ainda engoli uma abelha. Depois, passeio no memorial da américa latina, encontro com Renata e Beatrice, visita ao pavilhão da criatividade e por fim, o circo. Eu esperava mais do espetáculo circense, mas foi meio água com açúcar. Não me empolgou muito mas dei algumas rizadas. E no fim, televisão em casa e o show da vida.

quinta-feira, 24 de abril de 2008

ESTÔMAGOS


Ontem minha amiga Renata não estava bem e convidei-a para almoçar no centro de cultura judaica, pertinho de casa. Então, foi minha primeira vez com a comida kosher, como os judeus a denominam. Na culinária deles, tudo tem um sentido.Tudo tem um simbolismo incrível. Lembro que o pão não tinha fermento porque eles não tiveram tempo de fermentá-lo, na fuga para o egito. Eles não comem nada derivado de porco. E eu adoro bacon. Fui pesquisar um pouco. Cada bocado de comida que entra em nossas bocas em uma oportunidade é para cumprir uma mitsvá, um preceito. De maneira semelhante nossas opções pelo alimento e estilo de vida podem nos capacitar a seguir os preceitos da Torá para a preservação da vida humana e da saúde. Muito interessante. Mas vamos às minhas considerações. Ao olhar os pratos, observei tudo com muita curiosidade. Eles adoram comidas agridoces. Eu também. Não comi todos os prastos mas a lasanha de beringela estava maravilhosa. Provei de tudo um pouco e somente senti falta do arroz. Achei muito gostoso. A sobremesa foi uma fatia de bolo de chocolate com nozes. Delícia. A tarde, não senti muita fome, e fiquei feliz de ter me alimentado saudavelmente. A noite, fomos ao cinema. Que filme? Estômago. Haja estômago.