As vezes, a gente se pergunta: Porque vemos o mesmo filme várias vezes? Ontem e hoje, vi pela enézima vez ,"Um lugar chamado Nothing Hill". O filme tem o canastr o do Hugh Grant no papel do tímido livreiro. É um filme que fala da busca e espera do amor. Ensina-nos a viver. Quantas situaç es queremos submeter certos amigos, apresentando pessoas, que esperamos bem ou mal, correspondam as car ncias desses amigos. O filme mostra um pouco disso. Mas ontem fui assistir um espetáculo chamado "Arrufos". Lindo. Fala sobre o amor e suas vertentes em diferentes épocas. Quando acabou a peça, sai do espaço onde aconteceu a encenaç o e fiquei esperando as meninas do movimento canelau. Vários casais se beijando.Vários tipos de casais, diga-se de passagem. Dormi pensando no sofrimento do jovem Werther. Dormi pensando num amor que tive, ou melhor, tenho, porque amor que é amor vai a eternidade. Mas a tristeza maior da minha vida, foi ter que me afastar desse amor para que a raz o e o bem prevalecesse. Naquela época, sofri calado. Adoeci gravemente mas me resguardei. N o me arrependo do que fiz. Respeito o sil ncio e a frieza de alguém que n o aprendeu a viver plenamente. Dias desses, na mudança, encontrei umas cartas desse passado. Trouxe-as comigo. Servir o para algo muito importante. S o a prova que eu estava certo. Mas terei que esperar pela eternidade para estar cara a cara com a verdade.Ou n o. Filmes da vida.
Contos e crônicas da vida...a vida não como ela é, mas como a vida quer.
segunda-feira, 10 de março de 2008
quinta-feira, 6 de março de 2008
Mundo pequeno mundo
Peguei a primeira gripe do ano.Está um calor infernal nessa cidade. Ontem foi meu primeiro dia de aula do mestrado. É bom voltar aos bancos. Tive que acordar cedo e correr para pegar o metrô, pegar a ponte orca, pegar o trem. Ufa, uma viagem e tanto. Nas estaç es tocavam Piaf. Dentro do trem, músicas clássicas e um maravilhoso ar condicionado. A turma é meio heterog nea e a aula inaugural n o foi lá essas coisas. Hoje fui a 25 de março. Olhar tecidos. Achei uma loja fantástica. Me vi uma hora no meio do rapa. Fiquei com pena, pois todos est o tentando ganhar a vida. Na volta resolvi n o pegar o metrô e fui caminhando até a praça da república. No viaduto do chá, cruzei com um rapaz negro vestido com uma blusa verde lim o. Ele se destacava da multid o. Mais adiante, quando pensei que já tinha visto tudo, encontro uma mulher negra de cabelos oxigenados. Uh terer !E quando desço o metrô consolaç o, dou de cara com um ex-aluno meu de Fortaleza. Mundo pequeno mundo.
segunda-feira, 3 de março de 2008
A vida se renovando
Andar pelas ruas de Sampa sempre nos traz uma surpresa, seja encontrar uma amiga na Paulista, seja encontrar um amigo de Fortaleza na 25 de março. O mundo é pequeno. Tenho caminhado muito por aqui. Sexta passada fui ao Masp. Fiquei observando o retrato de Suzanne Bloc, aquele que foi roubado e recuperado. Não era a melhor obra da coleção. Havia os Van Gogh e Renoir. Havia muitas coisas, aliás. A exposição sobre mitos era uma maravilha. Depois fui almoçar no restaurante de lá. Pequenos prazeres. Grandes prazeres. Ontem fui ao teatro ver “Gota D’água” de Chico. Esperei anos para ver uma montagem. Três horas de espetáculo. Maravilhoso. Fabuloso. E hoje, saindo do metrô, uma mãe amamentando seu filho na escada me chamou atenção. A vida se renovando. C’est la vie.
segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008
Amor e restos humanos em SP.
Nos últimos dias, ou melhor, poucos dias, desde que cheguei em Sampa, tenho visto muitos restos humanos. Sábado, vi os restos de Livia Linda Benita Guerra. Depois, cantina e tudo acaba em pizza. Antes, como bendito fruto, estava rodeado de mulheres inteligentes a discutir a vida e mais restos humanos. Ontem fui aos sets com a Renata. Cinema é a arte da espera. E da paciência. Almocei com a equipe e depois fomos a Cotia. Uma chuva. Rio alagando. Esperamos a tormenta passar e voltamos. Paramos numa padaria e jantamos. Não existem padarias melhores. Hoje, caminhei muito. Fui ao cartório e correios. Caminhei e observei muitas coisas. Como a bonequinha de luxo, fiquei olhando a vitrine da Tifanny's. Sem as rosquinhas. A vida começa a caminhar.
sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008
INÍCIO DO FIM
Faltam poucos dias para a mudança. Comecei a viver o início do fim e começo a enxergar muitas coisas com cores diferentes. Tenho tentado fazer coisas que não poderei fazer mais na selva de pedra: caminhar na beira-mar, admirar certos lugares até então inexpressivos, deliciar-me com coisas que só existem aqui. Ontem fui comer caranguejo e não fazia isso há muitos anos, às quintas-feiras. Mas meu objetivo era juntar um casal. Eita povo difícil. Depois fui dançar e dancei muito. E outras coisitas mais. Hoje, muito cedo, se é que dormi, lá estava eu madrugando na receita federal para resolver uma pendência. Pendências resolvidas, fui ao centro. Foi onde mais vi o cotidiano diferente. Entrei numa padaria e pedi cuscuz, tapioca, suco de laranja, café e água. Breakfast at Tifanny’s. A moça que me atendeu sempre sorrindo e toda solícita. Achei que estava me paquerando. Andando nas ruas, observando os passantes, parando para dar esmola a uma mulher com o filho tetraplégico, Fortaleza estava diferente. Ou seria eu que estava mudando? Faltam 8 dias.
quinta-feira, 31 de janeiro de 2008
Paraísos

O que é o paraíso? Talvez seja um estado de satisfação quando obtemos alguma vitória. Talvez seja o momento em que o orgasmo transborda de nosso ser. O paraíso poderia ter muitas definições mas a cada dia acho que vivemos mais perto é do inferno. Viver é incômodo já dizia sabiamente Clarice Lispector. Chega o início do ano, chegam os impostos infernais. Contas e mais contas. E se estamos sós, vivemos o inferno astral da solidão e da carência. Hoje, dirigindo, um motorista deu uma banana pra mim pois dei uma buzinada para ele acordar. Eu ri. Não quero um dia infernal. Ontem estava atrás do paraíso. E vi diversos. Paraísos artificiais. Momentâneos. Efêmeros.
terça-feira, 29 de janeiro de 2008
O cantor
Em “My Way” sentiu uma tontura mas cantou até o fim. Há vários dias sentia-se mal e sua magreza já chamava atenção. Alimentava-se mal e até o maestro já tinha-o chamado atenção. Hilton não conseguia mais acompanhar o pique da orquestra. Quase todas as noites havia bailes e o carnaval aproximava-se. No último baile, em “Besame Mucho” tombou desmaiado, assustando os idosos do baile da terceira idade da Sociedade Campestre Estrela.
Acordou no hospital. Ainda não tinha amanhecido. O médico diagnosticou falta de alimentação e anemia profunda. O maestro deu-lhe uma licença e Hilton voltou para casa. A mãe recebeu-o cheio de caldos e comidinhas. Preocupou-se com o estado do filho. O pai aconselhou-o a comer mais. Fazia tempo que não parava em casa e aqueles carinhos todos foram muito bons. Carinho de mãe não é igual.
Fizera todos os exames. A pele estava coberta de manchas. Usava camisas de mangas compridas para não verem, mesmo que a temperatura fizesse 40 graus. O último médico, sem um diagnóstico conclusivo, pedira um exame de HIV. Um medo que tirava-o o sono e o resto do apetite tomara-lhe conta. Tivera algumas relações homossexuais, algumas até irresponsáveis, mas sempre se cuidara.
O envelope tremia em suas mãos. O suor banhava-o. A moça do laboratório sabia o resultado que havia naquele envelope. Convidou-o a uma outra sala. Dera-lhe um calmante. Hilton tremia e uma sensação de solidão tomara-lhe o espírito. A moça, muito carinhosa, conversou longamente com ele. Passou-lhe uma folha com nome de alguns médicos e o que ele devia fazer nos próximos dias. Hilton ouvira e concordara com ela. Iria procurar o melhor médico. Não era o fim do mundo. Ninguém morria mais de Aids. Morria de ignorância. De repente, uma onda de tristeza tomou conta e iniciou um choro longo. Precisava falar, se não explodiria. A moça que não sabia o nome ouviu tudo e abraçou-o. o choro aliviou-lhe a tensão e levantou-se para ir para casa. Prometeu ligar para a moça. Para Cláudia. Saiu.
Andou algum tempo até pegar o ônibus mas antes parou num mercadinho. Chegou em casa sorridente. A mãe estranhara-lhe o bom humor. Mas nada comentou. Hilton pedira para não ser incomodado porque iria dormir um pouco. Tomou um banho demorado e trancou-se no quarto. Escreveu uma carta e abriu a janela. Ventava. Despediu-se do vento. Picotou o exame em muitos pedaços e jogou-os pela janela. A carta fora levada pelo vento para debaixo da cama. Pegou o veneno para rato e misturou num copo de suco que a mãe preparara com carinho. Tomou tudo de um gole. Aos poucos, tudo em seu estômago passou a queimar. Um grito foi ouvido do quarto. A mãe não tinha certeza se ouvira realmente um grito mas bateu na porta do quarto. Ouviu uns gemidos. A porta não estava trancada. Abriu. Hilton retorcia-se no chão. Não conseguia falar. Estava morrendo. A mãe gritara pelo pai, que veio andando lentamente, porém aflito. Deparou com uma cena de Pietá no quarto do filho. Fez um esforço sobre-humano e correu para o telefone. Uma ambulância. Quando os para-médicos chegaram ainda tentaram uma lavagem estomacal mas o veneno fora mais rápido. Os gritos de uma dor atroz foram o último canto de Hilton. Os pais ficaram em estado de choque. Fecharam o quarto e foram passar um tempo com o filho mais velho em outra cidade.
Alguns meses mais tarde, o quarto de Hilton fora reaberto pela cunhada, que encontrou a última carta debaixo da cama. Abriu e leu:
“Queridos pais,
Perdão. Desisti de viver. Amo vocês. Queria ter sido o engenheiro que papai queria. Queria ter sido o advogado que mamãe queria. Mas fui estudar canto, que era o que queria. A vida me levou por caminhos que me mostraram o lado negro das coisas. Não vou mais viver. Por favor, não sofram. Apenas desisti de viver. Com amor, Hilton.”
“Egoísta” sussurrara a cunhada. Guardou a carta no bolsa e mais tarde queimou-lhe. Não faria os sogros sofrerem mais. Para ela, todo suicida era egoísta. A família ainda sofria. A casa foi vendida alguns meses mais tarde.
Acordou no hospital. Ainda não tinha amanhecido. O médico diagnosticou falta de alimentação e anemia profunda. O maestro deu-lhe uma licença e Hilton voltou para casa. A mãe recebeu-o cheio de caldos e comidinhas. Preocupou-se com o estado do filho. O pai aconselhou-o a comer mais. Fazia tempo que não parava em casa e aqueles carinhos todos foram muito bons. Carinho de mãe não é igual.
Fizera todos os exames. A pele estava coberta de manchas. Usava camisas de mangas compridas para não verem, mesmo que a temperatura fizesse 40 graus. O último médico, sem um diagnóstico conclusivo, pedira um exame de HIV. Um medo que tirava-o o sono e o resto do apetite tomara-lhe conta. Tivera algumas relações homossexuais, algumas até irresponsáveis, mas sempre se cuidara.
O envelope tremia em suas mãos. O suor banhava-o. A moça do laboratório sabia o resultado que havia naquele envelope. Convidou-o a uma outra sala. Dera-lhe um calmante. Hilton tremia e uma sensação de solidão tomara-lhe o espírito. A moça, muito carinhosa, conversou longamente com ele. Passou-lhe uma folha com nome de alguns médicos e o que ele devia fazer nos próximos dias. Hilton ouvira e concordara com ela. Iria procurar o melhor médico. Não era o fim do mundo. Ninguém morria mais de Aids. Morria de ignorância. De repente, uma onda de tristeza tomou conta e iniciou um choro longo. Precisava falar, se não explodiria. A moça que não sabia o nome ouviu tudo e abraçou-o. o choro aliviou-lhe a tensão e levantou-se para ir para casa. Prometeu ligar para a moça. Para Cláudia. Saiu.
Andou algum tempo até pegar o ônibus mas antes parou num mercadinho. Chegou em casa sorridente. A mãe estranhara-lhe o bom humor. Mas nada comentou. Hilton pedira para não ser incomodado porque iria dormir um pouco. Tomou um banho demorado e trancou-se no quarto. Escreveu uma carta e abriu a janela. Ventava. Despediu-se do vento. Picotou o exame em muitos pedaços e jogou-os pela janela. A carta fora levada pelo vento para debaixo da cama. Pegou o veneno para rato e misturou num copo de suco que a mãe preparara com carinho. Tomou tudo de um gole. Aos poucos, tudo em seu estômago passou a queimar. Um grito foi ouvido do quarto. A mãe não tinha certeza se ouvira realmente um grito mas bateu na porta do quarto. Ouviu uns gemidos. A porta não estava trancada. Abriu. Hilton retorcia-se no chão. Não conseguia falar. Estava morrendo. A mãe gritara pelo pai, que veio andando lentamente, porém aflito. Deparou com uma cena de Pietá no quarto do filho. Fez um esforço sobre-humano e correu para o telefone. Uma ambulância. Quando os para-médicos chegaram ainda tentaram uma lavagem estomacal mas o veneno fora mais rápido. Os gritos de uma dor atroz foram o último canto de Hilton. Os pais ficaram em estado de choque. Fecharam o quarto e foram passar um tempo com o filho mais velho em outra cidade.
Alguns meses mais tarde, o quarto de Hilton fora reaberto pela cunhada, que encontrou a última carta debaixo da cama. Abriu e leu:
“Queridos pais,
Perdão. Desisti de viver. Amo vocês. Queria ter sido o engenheiro que papai queria. Queria ter sido o advogado que mamãe queria. Mas fui estudar canto, que era o que queria. A vida me levou por caminhos que me mostraram o lado negro das coisas. Não vou mais viver. Por favor, não sofram. Apenas desisti de viver. Com amor, Hilton.”
“Egoísta” sussurrara a cunhada. Guardou a carta no bolsa e mais tarde queimou-lhe. Não faria os sogros sofrerem mais. Para ela, todo suicida era egoísta. A família ainda sofria. A casa foi vendida alguns meses mais tarde.
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